Seqüência dos Dinos


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"Se rugas têm de ser escritas na testa, não permita que se inscrevam no coração. O espírito jamais deve envelhecer" James Abram Garfield

Sábado, Abril 26, 2008

Sons que vinham da rua





Estava eu caminhando para o trabalho, quando cruzei com um vendedor de vassouras, andando na minha frente, apregoando os seus produtos:
"Êêê...Vassoura!"
Foi o bastante para apertar o "rewind" de um videocassete que eu tenho na memória. Tinha um vassoureiro que, duas vezes por semana, aparecia na rua em que me criei.



E que potência de voz! Lembro que uma vez eu estava no fundo do quintal, trepado numa mangueira, escutando cabelo crescer (quando eu não tinha mais o que fazer, subia numa das muitas árvores do quintal e ficava lá, bestando...) e o homem apareceu na esquina, espraiando seu vozeirão por toda a vizinhança:
"Vasssssssouraaaaaaaaaa....Olha a vassoura!...De pelo e piaçaaaaaaavaaaaaaa!"
*
Os sons que vinham da rua eram muitos e curiosos na sua maioria. Tinha o vendedor de cavaco:
"Dona Capitulina, o cavaco já chegou
O cavaco tem açúcar tem gosto e tem sabor
Chora, menino, pra mamãe comprar cavaco!"
(Caraco! Como é que eu ainda lembro disso???)
Pra quem não sabe, cavaco era um canudinho de biscoito, também chamados de beiju, que o homem vendia em embrulhinhos com cinco cada um. Nem lembro quanto custava, mas era uma micharia.
*


Tinha o vendedor de pirulito. Esse fazia um som difuso ("Ô-ôô!"), mas que o diferenciava dos outros pregoeiros. Além disso, ele sacudia uma matraca (tabuinha, com uma espécie de arco de arame preso pelas pontas, que ao ser sacudida produzia um som pelo ir e vir do arame). Esse eu lembro. Custava 100 cruzeiros. Quando sobrava algum dinheirinho do meu negócio de troca e venda de gibis, eu gostava daqueles cones açucarados, envoltos em papel-manteiga (que dava um baita trabalho para retirar...)
*
Pela minha rua passava um outro vendedor, que eu gostava de ouvir apregoar. Ele vinha carregado de coisas, e ainda contava com a ajuda de dois filhos, que praticamente corriam para alcançar os passos largos do pai. Eu achava que ele vendia de tudo, um armazém ambulante. Seus pregões eram assim:
"Cala-boca pra tirar mancha e ferrugem da roupa!
Pó de broca pra matar pulga, barata e formiga!
Tapete e colcha de chenile!
Anil, pregador e veneno pra rato!"
Minha mãe nunca comprava nada nele. Eu perguntava e ela dizia que já tinha tudo o que ele apregoava. Eu via o homem e seus dois meninos, andando naquele calorão, todos carregados de bolsas e penduricalhos. Quando alguém resolvia comprar algo, era um alívio até pra mim! Eles desciam as bolsas, para atender à freguesa e aproveitavam para pedir um copo d'água. Vi uma vez uma senhora dar limonada pros meninos. E eles falaram um “brigado”... que parecia um sussurro envergonhado. Em seguida, catavam as bolsas e lá iam de novo, perseguindo o andar apressado do pai.
*
Eu também fui pregoeiro durante alguns dias. Meus amigos descobriram um depósito de picolés que emprestava caixa e cedia os gelados para a gurizada vender. A molecada da rua ia vender picolé para reforçar o orçamento de casa. Eu ia por farra, mesmo.
Recebi a minha caixa com 30 picolés de diversos sabores, que eu apregoava aos berros pelas ruas do bairro: “Aêêê...o picolé é cem! Coco, uva, maracujá, limão e milho verde!”



O pior era ficar ouvindo as piadinhas dos engraçadinhos de plantão: “Ô do picolé, tem de jiló?”, “Alô, picolé! Água pura ninguém quer!”, “E aí menino, o que você leva dentro?”...
Eles achavam isso tão engraçado...
Quando era alguém do meu tope a fazer a gracinha, eu invariavelmente respondia com frases envolvendo partes remotas de sua anatomia ou eventualmente algum comentário desairoso sobre sua inocente genitora. Mas, se fosse alguém maior, só me restava ignorar e seguir adiante, anunciando meus picolés.
*


Eu só tive disposição para vender os sorvetinhos por três dias. Com a bola de futebol quicando no campo, imagina se eu iria andar debaixo daquela “lua” com uma caixa de picolés nos ombros... Com a féria desses três dias, fui na loja O Rei da Voz, e comprei um compacto duplo com a trilha sonora de “Romeu e Julieta”. Tenho o disco até hoje.
*
Nas viagens que fiz e faço, sempre presto atenção nos pregões de rua. É claro que eu prefiro aqueles que são levados no gogó, sem amplificação. Afinal de contas, não tem graça nenhuma ficar ouvindo um mequetrefe gritar pelo alto-falante: “Pamonha! Pamonha! É o puro curau do milho verde!”
*
Os antigos sons que vem da rua passam pelos meus ouvidos e acordam a minha memória: o ziiiiiiiiiiiinnnnn! do amolador de faca, o trim! trim! de campainha de bicicleta do padeiro, o fon-fon da buzina do vendedor de bolos e doces...
A sonoplastia de minhas lembranças desperta o menino que deixei no alto de uma árvore do quintal, escutando cabelo crescer. E que hoje, maiorzinho, quer manter aquele mesmo sorriso travesso e o mesmo brilho nos olhos ao ouvir os sons que vêm da rua.

PteroMarco

::: Relembrado por Jack 11:10 AM

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Domingo, Abril 20, 2008

Rin Tin Tin





Era uma série americana sobre um cão que acompanhava uma unidade da cavalaria dos EUA. O melhor amigo de Rin Tin Tin era o Cabo Rusty, garoto que perdeu os pais em um ataque dos índios e que foi adotado pela corporação. Tornou-se uma espécie de mascote. Sempre que havia algum problema e Rusty necessitava da ajuda do cão, ele gritava: "Yo ho Rinty!". Todos viviam em um forte apache, no Arizona.

O primeiro Rin Tin Tin surgiu em 1922. Foi sucedido por outros dois cães Pastor Alemão (German Shepherds) na série de TV. O Rin Tin Tin original morreu em 1932.

O canal de TV ABC estreou em 1959 uma nova série com o personagem que ficou no ar até 1961. Outro canal, a CBS, retornou com a mesma série em 1962, mantendo-a no ar até setembro de 1964.

O veterano ator James L. Brown foi convocado em 1976 para fazer as aberturas da série em que havia participado nos anos 50. Mais uma vez a série voltou ao ar com sucesso de público. E nos anos 80 e 90 uma grande quantidades de filmes foram feitos, todos inspirados no primeiro grande cão ator da TV americana, Rin Tin Tin. Surgiram os filmes da série K9 (Canine) e K9 Cop entre outros.

Só não me lembro de quando a quando passaram os episódios dessa série aqui no Brasil. Mas os atos heróicos de Rin Tin Tin tiveram até sucessor brasileiro: o cão Lobo do seriado Vigilante Rodoviário. Mas isso poderá ser até outro post. Alguém se lembra deles?

::: Relembrado por Jack 6:28 AM

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Segunda-feira, Abril 14, 2008

Fragmentos de um velho diário

início da década de 70


Preciso comprar pilhas pro meu rádio portátil. Estou ouvindo um novo programa na Bandeirantes, o Pulo do Gato do José Paulo de Andrade e está chiando demais. Os dois , o Zé Paulo e o som que vem do rádio. Queria comprar um conjunto de som, como o que vi na casa do Zé Oliveira mas ainda não estou seguro qual vou comprar. Acho que vai ser um Gradiente que estou namorando há alguns meses.

Peguei o ônibus elétrico para trabalhar hoje. Antes do trôlei chegar, deu tempo de passar na banca pra pegar o último número d’O Pasquim. E também, para ver um majestoso par de pernas de uma morenaça, dessas de fechar o comércio, a indústria e as repartições públicas. Ela estava conversando com alguém no novíssimo telefone público que a CTB de São Paulo acabou de instalar perto da banca. De repente fico com pena do Clark Kent pois ali vai ser impossível dele trocar de roupas e se tornar o Super Homem, pois aquilo não é propriamente uma cabine. Ela é alaranjada (a cabine; a morena continua morena, ali, no maior papo), de fibra de vidro toda aberta, cobrindo apenas a cabeça do usuário. E se parece com uma enorme casca de ovo cortada diagonalmente mas já começaram a chamar de orelhão, que parece, vai acabar pegando.

No escritório, a nossa secretária está toda feliz pois o nosso chefe conseguiu aprovação para comprarmos a última palavra em tecnologia de escritório: a máquina de escrever elétrica da IBM que vem com diversas esferas, cada uma com tipos diferentes de letras que podem ser trocadas e vem com um dispositivo de autocorreção! Com leve pressão nos teclados, as letras vão sendo impressas. Dou uma olhada na grande novidade e fico sonhando em ter uma dessas máquinas em casa, mas sei que vou ter que me contentar por muito tempo com a minha Lettera22 portátil, da Olivetti.

Não tenho aulas esta semana, cheguei mais cedo em casa, depois de uma rodada de cerveja com o Castilhão e Carneiro, no sujinho, ali na Jaceguai. A televisão está ligada e ouço um trecho do Summer of ’68 de Pink Floyd. É o tema do Jornal Nacional. Quem será a pessoa que escolhe essas músicas? Excelente gosto musical! Gostaria de ter um emprego desses, mesmo sabendo que não tenho qualificações pra isso. O noticiário ainda continua censurado, mas é o que temos...

A minha mãe me pergunta se não quero ver o concurso de Miss São Paulo na Tupi com ela. E como quem não quer nada, comenta que talvez eu esteja precisando visitar o barbeiro, que estou parecendo um hippie, que afinal já estou na idade de casar, que o meu pai já tinha três filhos com a idade que tenho (ô lôco, será que é verdade mesmo?!), que até o meu irmão mais novo já se casou, esses papos de mãe japonesa. Lembrei de repente que preciso terminar um projeto e escapo pro meu quarto.

O quarto está a mesma bagunça de sempre com pôsters de filmes e um infindável recortes de lindas mulheres nas paredes; jornais, revistas e roupas íntimas (infelizmente são só minhas...) espalhados, que decoram o meu pedaço. Procuro um livro pra ler, o Incidente em Antares, o último de Veríssimo que ganhei da Keiko, que quer discutir a obra comigo. Eu gostaria mesmo era discutir (quem sabe, fazermos?) outras coisas mais práticas e bem mais agradáveis...

Acabei esquecendo de comprar as pilhas e vou ter que me conformar e ouvir o rádio com os mesmos chiados. Estou ouvindo a grande Elis Regina cantando Nada Será como Antes. No todo, um dia sem novidades, como qualquer outro, mas tenho a impressão que vou me lembrar desse dia com muito carinho em algum lugar no futuro. E o seu dia, como foi?

::: Relembrado por gaijin4ever 3:43 PM

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Terça-feira, Abril 08, 2008

CHARLTON HESTON


Impedido que estive de escrever meu texto em casa nesse último final de semana, vou publicar hoje, com minhas escusas aos colegas "dinos" e leitores pelo atraso, algumas linhas a respeito de um grande ator que faleceu recentemente.
Charlton Heston, que foi batizado como John Charlton Carter, tinha 84 anos e já sofria há tempos com uma doença parecida com o mal de Alzheimer.
Confesso que pouco sei a respeito da vida particular desse homem que chegou a ser presidente da National Rifle Association (NRA), uma poderosa entidade que defende o direito dos cidadãos americanos de possuir e portar armas de fogo e, por conta disso, Michael Moore o incluiu em suas ácidas críticas no filme-documentário “Tiros em Columbine”.
Polêmicas à parte, eu gostaria de lembrar do Charlton Heston ator.
Vários personagens que interpretou marcaram a minha infância e adolescência.

O épico bíblico Os Dez Mandamentos talvez tenha sido o mais marcante, no papel de Moisés, mas vários outros se tornaram, para mim, inesquecíveis.
Ben-Hur e a memorável cena da corrida de bigas;
A Maior História de Todos os Tempos, no papel de João Batista;
El Cid, herói espanhol que lutou pela unificação da Espanha dividida entre católicos e mouros;
Agonia e Êxtase, onde interpretou Michelangelo; e
Júlio César, no papel de Marco Antonio.
Charlton Heston parecia ser o predileto dos produtores quando se falava em filme épico. Mas nem só de épicos é composta a brilhante carreira de Heston.
55 Dias em Pequim, Aeroporto 75 e os ótimos Terremoto e Midway que assisti nos anos 70, com grande emoção, pelo sistema sensurround, merecem ser lembrados.
Não vou aqui relacionar todos os filmes estrelados por ele ou outros tantos em que fez participações especiais, mas há dois clássicos na carreira desse ator que não posso deixar de citar:
- O Planeta dos Macacos (1968), um marco da ficção científica na minha modesta opinião. A cena da Estátua da Liberdade semi-enterrada na areia da praia, na cena final, é apoteótica; e
- A Última Esperança da Terra (1971), outro grande filme de ficção que me marcou e foi, recentemente, refilmado com o título de “Eu Sou a Lenda” e com Will Smith no papel principal. Houve ainda uma versão anterior, em 1964, com o Vincent Price, chamada “The Last Man On Earth”, mas gostei muito mais da versão de 71.
Enfim, fica aqui a minha modesta homenagem a esse que, se não foi um ator brilhante, pelo menos tinha uma presença marcante e muito imponente na telona.

Update: Tomei conhecimento hoje (11/04) que Ben-Hur pode virar uma série de televisão. Veja aqui a notícia. Vale como curiosidade.

::: Relembrado por Paulo 8:03 PM

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